Delfim Ferreira - breve biografia

De olhos postos no ano de 1888, salienta-se o nascimento de Delfim Ferreira, em Riba d’ Ave, concelho de V. N. Famalicão. Uma zona que ficou conhecida pelo seu grande investimento têxtil, pelo desenvolvimento económico, social e, consequentemente, cultural.

Delfim Ferreira era filho de Narciso Ferreira, um grande industrial da zona do Ave. Tendo consciência da realidade económica que o abrangia, conhecimentos transmitidos pelo pai e munido de espírito empreendedor, Delfim Ferreira decidiu obter formação profissional, tirando o curso Técnico e Industrial pela Real e Imperial Escola de Reichnberg. Desta forma, com horizontes bem definidos, este industrial não se limitou à indústria têxtil e de pneus, alargou as suas áreas de atividade, promovendo o desenvolvimento empresarial em empresas como a Empresa Têxtil Elétrica, Lda. (1905), Oliveira, Ferreira e Companhia, Lda. (inaugurada em Riba d’Ave em 1910) e Hidroelétrica do Varosa (fundada em 1918). A título de curiosidade, esta última empresa chegou a fornecer, a partir de 1928, energia elétrica aos concelhos de Gaia, Matosinhos, Santo Tirso, V. N. Famalicão e Vila do Conde.
Delfim Ferreira revelou grande capacidade de inovação industrial, qualidade reconhecida a nível nacional que levou o Governo a incitar este industrial a aproveitar as águas do rio Ave. Empreendedor como era, aceita o convite e cria Hidroelétrica do Ermal, conseguindo abastecer a cidade do Porto de eletricidade. Posteriormente, fundiu a Hidroelétrica do Ermal e a Hidroelétrica do Varosa, dando origem a Companhia Electro-Hidráulica do Norte de Portugal (CHENOP). Em 1953, e novamente a convite do Governo, Delfim Ferreira explorou as águas do rio Douro, dando origem à Hidroelétrica do Douro.

Nunca descurando a realidade têxtil, surgem novas empresas de grande dimensão como Fábrica de Fiação e Tecidos, com sede em Vila do Conde, Empresa Têxtil Algodoeira de Arcozelo, sediada em Gaia, com cerca de dois mil trabalhadores, nos meados do seculo XX. Com Empresa Nacional de Sedas, em Gaia, tornou-se o primeiro industrial a introduzir o fabrico de seda artificial em Portugal.
A inovação, a evolução e o espírito revolucionário levam Delfim Ferreira a outras áreas económicas, destacando-se na produção do Vinho do Porto, com novos métodos de produção vinícola e de arroteamento no Douro, nomeadamente nas suas propriedades de Quinta dos Frades (Armamar) e Quinta do Castelo (Santa Marta de Penaguião).
Este grande industrial desafiou outras áreas, completamente distintas da produção têxtil, elétrica ou vinícola, mas não menos produtivas e reveladoras do seu espírito visionário – a  construção de edifícios públicos. Assim, foi o responsável pela construção de grandes edifícios na Avenida António Augusto Aguiar e Sidónio Pais (Lisboa) e na Avenida Sá da Bandeira (Porto). Dos Edifícios construídos, salientam-se o Palácio do Comércio, o Hotel Infante Sagres e, como proprietário, coroa o Porto com a Casa de Serralves, um dos mais esplêndidos palacetes desta cidade.

Como a vida de Delfim Ferreira se pautou sempre pela atividade, produção e inovação, depois de ter sido nomeado, em 1935, Procurador da Câmara Corporativa, renunciou ao cargo. A política não o fascinava, nem tinha tempo para se dedicar a esta área, preferindo a o desenvolvimento económico das suas empresas e do seu país. Por isto mesmo, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito Industrial (1951), Ordem Militar de Cristo e Grande Oficialato da Ordem de Mérito Industrial e Medalha de Ouro Municipal de Vila de Conde.

A 24 de setembro de 1960, morreu, na Casa de Serralves o homem mais rico de Portugal, como muitos afirmavam. E como o seu espírito visionário e social se manteve na sua família, a sua esposa, depois de ouvir a apresentação do sonho do Doutor Aurélio Fernando, cedeu o terreno onde se sagrou o Colégio de Riba de Ave, a 8 de outubro 1962. O Externato Delfim Ferreira continua, ainda hoje, ligado emocionalmente a esta família generosa e empreendedora.

 

Anabela Salgado

Professora no Externato Delfim Ferreira

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Delfim Ferreira: O Colégio ao seu Patrono

Ó Colégio de Riba d'Ave... um hino

És tu, feito de amor a toda a hora

Como se vista fosse p'los céus fora

Estrela Nova de fulgor divino!

Tu és, Delfim Ferreira, esse gigante

Que com teu nobre espírito avanças

Por entre os nossos sonhos de crianças

A dizer-nos: - adiante! mais adiante!

Da terra que de berço te serviu

Teu nome voa e sobe além e além...

No coração da gente moça, a quem

Não falta aquele ardor que em ti floriu.

Teu nome está bem alto e alumia

No lugar mais cimeiro, p'ra se ver!

Que se'inda mais alto pudesse ser

Bem mais alto decerto ficaria!

Rumo às estrelas, ó alma em claridade

Desta terra leal e sempre nobre

Se Riba d'Ave diz que sim ao pobre

Não pode dizer não à Mocidade!

P'ra que ela cresça e reze, p´ra que estude,

Ferem-se as rochas, livros mais se abrem

Para mostrar então aos que não sabem

Quanto vale depois a juventude!

Cantai, cantai! ó juventude em flor

Os vossos sonhos, surge a madrugada!

Cantai, cantai! que é longa a caminhada

Cantai, 'studando, um cântico de amor!

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  Espírito empreendedor

Delfim Ferreira foi responsável pela construção de grandes edifícios em Lisboa, bem como do imponente Palácio do Comércio e do Hotel Infante de Sagres, ambos no Porto.

Foi ainda proprietário de um dos mais brilhantes palacetes do Porto, a Casa de Serralves, onde viria a falecer: "(...) Em 1957, a propriedade foi vendida a Delfim Ferreira (1888−1960), Conde de Riba d´Ave, sob condição de que a propriedade não fosse objeto de qualquer transformação. O compromisso foi inteiramente respeitado. Grande parte da mobília foi vendida em leilões, encontrando-se hoje dispersa."

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Delfim Ferreira

O Comendador Delfim Ferreira (1888-1960) nasceu na freguesia de Riba d'Ave, concelho de Vila Nova de Famalicão. Era filho do grande industrial Narciso Ferreira, que, a partir de uma pequena fábrica manual, construiu o maior empreendimento têxtil que existiu em Portugal na segunda metade do século XIX.
Formado pela então prestigiada Real e Imperial Escola de Reichenberg, Delfim Ferreira destacou-se como industrial, sendo um empreendedor visionário e inovador. Expandiu os seus negócios para os sectores da energia hidroeléctrica e da construção civil, impulsionando todo o Vale do Ave e Douro e dando emprego a muitos milhares de trabalhadores.
Em 1953 compra a casa de Serralves (Porto), que é adquirida pelo Estado em 1987. A Delfim Ferreira e sua descendência se deve a perpetuação de um património, hoje lugar de referência e identidade da cidade do Porto.
O Governo da Nação reconheceu as suas capacidades de inovação industrial, agraciando-o com:
  • Grau de Comendador da Ordem de Mérito, por alvará de 10 de Abril de 1930;
  • Grau de Comendador da Ordem Militar de Cristo, por alvará de 5 de Outubo de 1933;
  • Grau de Grande Oficial da Ordem de Mérito Industrial, por alvará de 20 de Julho de 1948;
  • Grau de Grã-Cruz da Ordem de Mérito, por alvará de 25 de Maio de 1951.

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Veja também

1. Delfim Ferreira (1888-1960) - Um homem à frente do seu tempo: "Delfim Ferreira era um visionário que, já na década de 40, pretendeu construir um megacentro comercial no Porto. Industrial inovador e empreendedor inveterado, Delfim Ferreira expandiu os seus negócios para outros setores económicos, nomeadamente o da energia hidroelétrica e o da construção civil, impulsionando todo o Vale do Ave e dando emprego a muitos milhares de trabalhadores. As suas grandes capacidades de inovação industrial foram reconhecidas pelo Governo, que o convidou para dinamizar projetos de relevância nacional."

2. "O grande inovador que foi Delfim Ferreira", aqui.

3. Recordar Delfim Ferreira nos 50 anos da sua morte, de Joaquim Gomes, in Correio do Minho, 14/06/2010.